O Futuro Não Demora, do BaianaSystem: um LP que cresce a cada giro
Guitarra baiana, ijexá, eletrônica e graves com pegada de trio. Um álbum que transforma água e fogo em dramaturgia sonora e pede volume aberto para ocupar a casa

Lançado em 2019, O Futuro Não Demora é o BaianaSystem repensando o próprio impacto de pista para construir paisagem, memória e corpo. É um disco concebido como percurso, dividido em dois blocos simbólicos, Água e Fogo, e atravessado por parcerias que ampliam o vocabulário do grupo. A produção costura orquestrações e percussões de rua com dub, rap e samba-reggae, sem abrir mão do timbre da guitarra baiana.
O ponto de partida foi uma imersão na Ilha de Itaparica, com gravações espalhadas entre estúdios baianos e paulistas. A intenção era falar de ancestralidade para projetar futuro, e o resultado chegou às prateleiras em LP em edições nacionais e importadas — vencendo o Grammy Latino de 2019 em Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa. No cantinho do disco, a gente volta a esse álbum para entender por que ele continua soando maior quando a agulha desce.
O contexto que molda o som
Se Duas Cidades era choque urbano e corte seco, O Futuro Não Demora mira o horizonte e trabalha em ondas. A arquitetura musical deixa espaço para temas crescerem devagar, como se a banda abrisse e fechasse janelas no tempo de cada instrumento. Cordas, sopros e coros entram e saem com cuidado, a serviço de uma narrativa que se anuncia logo no início.
Dentro desse desenho, a guitarra baiana de Roberto Barreto funciona como guia melódico e também como percussão afinada. Russo Passapusso conduz as imagens da letra e chama o coro para perto, enquanto a mixagem abre palco para graves firmes e texturas de dub circularem ao redor. O disco não escolhe apenas um lugar de escuta. Ele aceita fone, aceita sala, aceita rua.
Como o disco se movimenta
O bloco Água puxa o ouvinte para dentro com camadas que crescem aos poucos. Bola de Cristal tem balanço elástico e respiração ampla, Salve organiza o canto de rua com sopros que sublinham o refrão e Sulamericano abre janelas para a vizinhança latina sem perder o sotaque de Salvador. No miolo, Sonar junta recortes eletrônicos e bateria viva, e Melô do Centro da Terra encontra um transe curto que reorganiza o passo.
A virada para Fogo troca a maré por brasa. Redoma acende o bloco quente com percussão mais marcada, Saci brinca com acentos e pausas e a faixa-título encerra o percurso como síntese. A sensação é de rito completo. O tema do começo volta mais denso, como quem fecha um ciclo e deixa calor no ar. É um arco contínuo, pensado para ouvir inteiro, sem pular etapa.
Faixas que revelam camadas
Logo na abertura, Água dá o tom do percurso. A canção cresce em textura com cordas e coro, mas conserva um centro melódico claro, como se a paisagem se montasse na frente do ouvinte. É o chamado para entrar.
Em Salve, o BaianaSystem faz do refrão um estandarte de rua. A resposta dos sopros encorpa o groove e a percussão empurra para frente, trilha de caminhada que ganha corpo quando o volume sobe um pouco.
Sulamericano, com Manu Chao, abre janelas de ida e volta no mapa. Violões, percussões e detalhe de guitarra dividem espaço com beats, e a letra navega por fronteiras porosas sem perder de vista o cais de origem.
Sonar, com Edgar e Curumin, é choque de pulsos. Recortes eletrônicos se misturam à bateria orgânica e a voz entra como instrumento de ritmo. É faixa que pede atenção de fone, mas cresce na sala quando o grave desenha o ar.
Em Navio, o tempo dilata. O grave de dub se estende pelo ambiente enquanto a percussão desenha o vai e vem da maré. É momento de respiro e profundidade que ajuda a costurar o percurso entre os blocos.
Em Melô do Centro da Terra, o transe vem da repetição. O tema gira hipnótico, efeitos orbitam ao redor e a sensação é de cavar fundo até achar o calor do núcleo. A passagem prepara o bloco seguinte sem quebrar o fluxo.
No fim do arco, Fogo não explode de uma vez. É chama que sobe, com metais sublinhando a marcha e a percussão marcando um chamado final. Quando a agulha levanta, fica a impressão de uma história contada em paisagens.
O que a prensagem traz de bom
Nas edições em vinil lançadas no Brasil, o disco ganha palco físico para graves e orquestrações. A imagem estéreo é larga e organizada. Percussões aparecem com recorte claro, os metais abrem horizonte e os ecos de dub ocupam o fundo sem apagar a voz no centro. Em sistemas compactos, subir um pouco o volume já traz ambiência e define melhor o desenho da sala.
As tiragens nacionais pela Polysom circulam com capa dupla e encarte que preserva a divisão Água/Fogo; alguns lotes vêm acompanhados de um compacto com versões estendidas de “Água” e “Fogo”, detalhe interessante para quem gosta de colecionar variantes. Há também prensagens europeias que mantêm o mesmo conceito visual. O importante é receber uma cópia limpa e bem cuidada, porque a mix favorece detalhes de ambiência que aparecem de imediato quando o ruído de superfície está controlado.
Para quem ele faz sentido
Se você gosta de discos que ocupam a sala e contam uma história sem pressa, O Futuro Não Demora é escolha natural. Ele dialoga com coleções que vão de Nação Zumbi a Mad Professor, mas mantém assinatura própria, unindo trio elétrico, sound system e canção em um mesmo gesto.
Para quem está montando a primeira estante, é um LP que ensina a ouvir em camadas. Funciona no volume de fundo e recompensa a escuta concentrada. A cada giro, a sensação é de que o álbum rearranja a casa e estica o tempo da audição.

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