Foreign Tongues: os Rolling Stones encaram o tempo sem baixar o volume

Entre riffs, política, desejo e memória, o 25º álbum da banda transforma longevidade em movimento, não em cerimônia

Poucas bandas chegam ao 25º álbum de estúdio ainda capazes de despertar curiosidade por músicas novas, e não apenas pela repetição do próprio repertório histórico. Lançado em 10 de julho de 2026, Foreign Tongues chegou menos de três anos depois de Hackney Diamonds e reúne 14 faixas, sendo 12 composições novas e duas releituras. A maior parte do trabalho ganhou forma em menos de um mês no Metropolis Studios, em Londres, novamente sob a produção de Andrew Watt.

A proximidade com o disco anterior poderia sugerir pressa, sobras de estúdio ou uma simples tentativa de estender o bom momento comercial da banda. Mas Foreign Tongues funciona melhor quando ouvido como uma continuação criativa: os Rolling Stones não tentam apagar a idade, fingir juventude ou produzir uma despedida solene. Eles fazem o que sempre fizeram, misturam blues, rock, country, soul e música dançante, agora com a consciência de que o tempo passou e o mundo ao redor ficou ainda mais estranho. 

No Cantinho do Disco, a gente volta a esse álbum para entender por que ele continua fazendo sentido na coleção.

Uma continuação que não soa como sobra

Hackney Diamonds representou uma retomada inesperada. Depois de 18 anos sem um álbum de composições inéditas, os Stones reapareceram em 2023 com energia, convidados importantes e músicas capazes de sobreviver fora do discurso da nostalgia. Parte do material de Foreign Tongues nasceu durante o mesmo período criativo, e algumas faixas foram deliberadamente guardadas para o projeto seguinte. Ainda assim, a gravação principal aconteceu posteriormente, com a banda reunida em Londres e trabalhando em ritmo concentrado.

Essa diferença importa. O disco não parece uma pasta de arquivos recuperados depois que a campanha anterior terminou. Há uma unidade clara entre as faixas, construída principalmente pelo modo como Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood ocupam o mesmo espaço musical. Andrew Watt continua exercendo o papel de produtor, guitarrista adicional e provocador, empurrando a banda para performances mais imediatas do que contemplativas.

O resultado é mais elétrico do que elegante. Há momentos em que a produção exagera na pressão, preenchendo espaços que talvez respirassem melhor com menos camadas. Mas existe uma vantagem nessa escolha: Foreign Tongues não soa como um documento preservado em museu. Ele chega com guitarras grandes, bateria frontal e uma disposição quase impaciente de alcançar o próximo refrão.

Rough & Twisted abre o disco sem pedir licença

Rough & Twisted estabelece o tom com um riff áspero e um andamento que parece ter sido construído para empurrar a banda para dentro da sala. As guitarras de Keith Richards e Ronnie Wood não aparecem como enfeites individuais. Elas se cruzam, se respondem e criam aquela sensação de desequilíbrio controlado que sempre foi uma das marcas dos Stones.

É uma abertura eficiente porque não tenta reinventar a linguagem da banda. Ela a apresenta de maneira física. Mick Jagger retorna à mitologia do blues, enquanto a base transforma referências conhecidas em movimento presente. A faixa carrega ecos evidentes do passado, ponto que dividiu fãs em fóruns especializados: alguns ouviram uma retomada vital do som clássico, enquanto outros enxergaram uma tentativa consciente demais de imitar os próprios Stones.

As duas leituras fazem sentido. Rough & Twisted não oferece uma ideia inédita, mas tem algo mais importante para uma abertura: química. A música soa como três músicos encontrando prazer no atrito, em vez de apenas reproduzirem uma fórmula registrada décadas atrás.

In the Stars transforma sobrevivência em refrão

Escolhida como primeiro grande single do álbum, In the Stars trabalha com uma estrutura mais expansiva. O riff de Keith sustenta a faixa, mas são os vocais de apoio, o refrão e o modo como Jagger projeta as palavras que lhe dão escala de arena.

A letra fala de sorte, permanência e vontade de continuar enquanto as guitarras ainda conseguem gritar. Não há reflexão serena sobre envelhecer. Jagger reage ao tempo como sempre reagiu a quase tudo: com movimento, provocação e uma recusa quase teatral em abandonar a pista.

É fácil imaginar In the Stars como parte de um show porque sua função é coletiva. Ela não tem o corte mais sujo do disco nem a interpretação mais vulnerável, mas oferece um dos momentos em que Foreign Tongues deixa de parecer apenas um novo álbum de uma banda antiga e assume a forma de repertório vivo.

Jealous Lover encontra os Stones na pista de dança

Os Rolling Stones nunca foram apenas uma banda de blues rock. Em diferentes momentos, absorveram soul, funk, reggae, disco e música eletrônica sem deixar de soar como eles mesmos. Jealous Lover recupera esse instinto.

O falsete de Jagger, o baixo sinuoso e o teclado elétrico de Steve Winwood aproximam a música de territórios já visitados em Emotional Rescue, Miss You e até Fool to Cry. A diferença está no acabamento moderno, que dá mais peso à base e menos espaço para a languidez.

A faixa funciona porque não trata a dança como lembrança dos anos 1970. Ela tem elegância, malícia e uma pulsação que ajuda o álbum a escapar de uma sequência previsível de riffs. É também um bom exemplo de como Foreign Tongues fala várias línguas musicais sem transformar diversidade em colagem aleatória.

Mr. Charm e Divine Intervention olham para o presente

Em Mr. Charm, os Stones adotam uma urgência mais próxima do punk. Jagger dispara palavras contra bilionários, obsessão por dinheiro e figuras de poder, incluindo uma referência direta a Elon Musk. O ataque tem humor, caricatura e a leve contradição de ouvir um dos artistas mais ricos do planeta ironizando a elite econômica. Mas essa contradição não enfraquece a faixa. Ela faz parte do personagem.

A música é curta em delicadeza e longa em atitude. Keith encontrou um riff mais forte para uma ideia que inicialmente veio de Jagger, segundo os próprios músicos, e essa intervenção ajuda a faixa a soar como obra da banda, não como comentário político colocado sobre uma base genérica.

Divine Intervention é mais ambiciosa. A letra observa um mundo de valores distópicos, bilionários procurando rotas de fuga e pessoas seguindo a vida como se o colapso fosse apenas mais uma notícia. Robert Smith, do The Cure, participa com guitarra, embora sua presença seja integrada de forma tão discreta que não transforma a música em um encontro de universos imediatamente reconhecível.

Isso pode frustrar quem esperava ouvir os Stones mergulhando em atmosfera gótica. Mas a escolha é inteligente. Smith entra na textura, não na propaganda. A música continua pertencendo ao grupo, com teclados de Steve Winwood e guitarras que crescem sem abandonar o refrão.

Ringing Hollow encontra a ferida por trás do espetáculo

Entre tantos momentos construídos para volume e impacto, Ringing Hollow é uma das músicas mais completas do álbum. A banda desacelera e retorna ao country que aprendeu a tratar com naturalidade desde o convívio com Gram Parsons no início dos anos 1970.

Jagger canta sobre os Estados Unidos com uma mistura de fascínio antigo e decepção atual. Filmes, cigarros, estradas e a imagem da liberdade aparecem ao lado de uma Lady Liberty com o vestido rasgado. A política deixa de ser sátira, como em Mr. Charm, e vira melancolia.

O arranjo não força gravidade. Piano, órgão e guitarras criam espaço para a voz carregar a mudança de perspectiva. Jagger não se apresenta como observador neutro nem como analista. Ele soa como alguém que passou décadas olhando para uma cultura que ajudou a moldar sua própria música e agora encontra rachaduras demais na imagem.

É justamente essa combinação de intimidade e mundo exterior que torna Ringing Hollow um dos pontos altos de Foreign Tongues. A banda não abandona seus gestos conhecidos, mas encontra um motivo atual para usá-los.

Hit Me in the Head traz Charlie Watts de volta à sala

A presença de Charlie Watts em Hit Me in the Head dá à faixa um peso inevitável. A gravação da bateria vem de uma sessão realizada em 2021, pouco antes de sua morte, e coloca novamente em evidência o modo econômico com que Watts conseguia movimentar uma música sem disputar espaço com ela.

A letra trata a mortalidade com o humor seco de quem prefere uma saída brusca a uma lenta deterioração. Jagger não transforma o tema em confissão ou elegia. Ele o converte em velocidade, barulho e ironia.

Ouvir Watts nesse contexto produz uma sensação estranha. A faixa é vigorosa, quase agressiva, mas carrega uma ausência que não precisa ser anunciada. Steve Jordan conduz grande parte do álbum com uma batida mais direta e pesada. Quando Charlie aparece, a relação entre pulso e silêncio muda. Não é melhor apenas por ser a última voz de um integrante histórico. É diferente porque o jeito de ocupar o tempo sempre foi exclusivamente dele.

You Know I’m No Good evita transformar homenagem em imitação

Regravar Amy Winehouse exige coragem e algum cuidado. You Know I’m No Good está profundamente ligada à personalidade, ao fraseado e à autocrítica da cantora. Tentar reproduzir sua interpretação seria uma derrota antes mesmo do primeiro refrão.

Os Stones fazem outra coisa. Jagger leva a canção para o território da banda, com metais, bateria mais pesada e uma gaita que substitui parte da languidez do original por nervosismo. A escolha também reconhece uma ligação anterior: Amy cantou com os Stones no festival da Ilha de Wight, em 2007.

A versão não supera a gravação de Winehouse, nem parece ter essa intenção. Seu valor está em mostrar como uma composição relativamente recente pode ser tratada pelos Stones como parte da mesma linhagem de blues e soul que alimentou o grupo desde o começo.

Dentro do álbum, a faixa ainda cumpre outra função. Ela interrompe o percurso autoral sem parecer um bônus deslocado e aproxima passado e presente sem recorrer a uma canção já consagrada pelos próprios Stones.

Some of Us deixa Keith Richards baixar a guarda

Todo álbum dos Rolling Stones parece reservar um momento em que Keith Richards se afasta do arquétipo do guitarrista indestrutível e assume a voz principal. Em Some of Us, essa tradição ganha uma interpretação particularmente frágil.

Keith canta sobre pessoas de joelhos, cansaço e vulnerabilidade sem transformar a música em declaração grandiosa. Sua voz carrega limitações, mas são justamente essas marcas que dão sentido ao arranjo. Não há necessidade de esconder o desgaste quando ele se torna parte da narrativa.

É o centro emocional do disco porque oferece aquilo que Jagger normalmente evita: quietude. Enquanto o vocalista responde ao envelhecimento com energia e performance, Keith parece aceitar que continuar também significa reconhecer perdas, joelhos cansados e uma voz que já viveu tudo o que está cantando.

Covered in You e Back in Your Life mostram duas formas de tocar em conjunto

Paul McCartney aparece no baixo de Covered in You, mas sua participação não funciona como duelo publicitário entre Beatles e Stones. A linha ganha espaço conforme a música deixa uma abertura mais contida e avança em direção ao funk rock.

A presença de McCartney é perceptível sem dominar a faixa. O baixo acrescenta mobilidade e conversa com a bateria de maneira mais melódica do que se esperaria de uma participação feita apenas para colocar um grande nome nos créditos.

Back in Your Life pertence a Ronnie Wood. Seu solo não depende de velocidade ou exibição técnica. Ele parece responder ao sentimento da música, alongando notas e criando uma das passagens mais expressivas do álbum.

As duas faixas mostram que Foreign Tongues funciona melhor quando os convidados e integrantes adicionais entram na conversa sem quebrar a identidade coletiva. O disco tem muitos nomes importantes, mas raramente parece uma coleção de participações.

Beautiful Delilah fecha o círculo

O encerramento com Beautiful Delilah, de Chuck Berry, poderia parecer uma escolha conservadora. Afinal, os Stones construíram a própria origem tocando artistas americanos de blues, soul e rock and roll.

A gravação, porém, tem um peso histórico específico. Andrew Watt convenceu a banda a registrar a música ao vivo em fita analógica, recuperando um processo mais próximo daquele que formou sua linguagem inicial. Chuck Berry também ocupa um lugar particular na história de Jagger e Richards: Keith carregava um disco do músico quando os dois se reencontraram em uma plataforma de trem, em 1960, episódio decisivo para a formação da parceria.

Depois de convidados, produção moderna, comentários políticos e várias tentativas de enfrentar o presente, Beautiful Delilah encerra o álbum no ponto de partida. Não como regressão, mas como reconhecimento. Os Rolling Stones continuam falando outras línguas porque nunca deixaram de conhecer a primeira.

Andrew Watt encontra energia, mas nem sempre encontra espaço

A produção de Andrew Watt é fundamental para o impacto de Foreign Tongues. Ele aumenta o peso das guitarras, aproxima a bateria do ouvinte e busca performances que pareçam acontecer em tempo real. A maior parte do álbum foi gravada com a banda tocando junta, escolha que ajuda a preservar reação e improviso em um trabalho cercado por logística, convidados e expectativas enormes.

O problema aparece quando intensidade e volume são tratados como a mesma coisa. Em Never Wanna Lose You, por exemplo, a vontade de transformar cada elemento em acontecimento deixa menos espaço para nuances. A faixa tem movimento, mas sua produção parece insistir demais para garantir que ninguém deixe de percebê-lo, crítica também levantada em parte da recepção especializada.

Essa discussão chegou igualmente aos fóruns de fãs. Parte dos ouvintes elogiou as composições e a disposição da banda, mas voltou a questionar o acabamento de Watt, descrito por um participante do Steve Hoffman Music Forums como uma troca entre músicas melhores e áudio pior. Outros defenderam a força das guitarras e a separação entre Keith e Ronnie.

É uma divisão compreensível. Quem procura o espaço, a leveza rítmica e a sujeira natural dos discos clássicos pode sentir uma camada moderna demais sobre a banda. Quem aceita a produção como parte do novo ciclo encontra um álbum vivo, direto e capaz de competir por atenção sem imitar um arquivo de 1972.

As edições em vinil transformam o álbum em coleção

Foreign Tongues foi lançado como música e como linha de colecionáveis. A edição mais direta é o 2 LP preto de 180 gramas, mas a campanha inclui discos coloridos, capas alternativas, picture disc, box, versões ligadas à Copa do Mundo, Panini, NASCAR e outras colaborações. A página oficial da banda reúne dezenas de configurações diferentes.

Na Amazon, a edição de maior apelo visual é o 2 LP de 180 gramas em vinil rosa bebê, com capa alternativa amarela e identificação de exclusiva da plataforma. Há uma página dessa versão também na Amazon Brasil, embora disponibilidade, vendedor e prazo de entrega possam variar.

Para quem busca o pacote mais completo, existe o box com 2 LPs amarelos de 180 gramas, capa dupla, pôster, impressão artística, slipmat e Blu-ray com áudio em Dolby Atmos, 5.1 Surround e estéreo de alta resolução. A configuração também aparece listada na Amazon brasileira.

A edição picture disc, inicialmente oferecida aos principais ouvintes da banda no Spotify, utiliza dois discos ilustrados e capa externa impressa. É uma versão voltada principalmente ao impacto visual e ao caráter limitado, não uma promessa automática de melhor reprodução.

A quantidade de variantes pode ser divertida para quem gosta de capas e cores, mas também exige cuidado. Não há necessidade de comprar várias cópias para ter uma experiência completa com o álbum. A versão preta ou a exclusiva rosa da Amazon já entregam o repertório integral em dois discos. O box faz sentido para quem valoriza o Blu-ray multicanal e os itens adicionais. As demais opções são, sobretudo, escolhas de coleção.

Foreign Tongues merece espaço na coleção?

Foreign Tongues não compete com Beggars Banquet, Let It Bleed, Sticky Fingers ou Exile on Main St.. Compará-lo diretamente com essa sequência seria ignorar que aqueles discos ajudaram a definir a linguagem que o novo trabalho agora revisita.

Também não é uma revolução tardia. Há riffs familiares, gestos já conhecidos e algumas músicas que dependem mais da energia da interpretação do que da força da composição. Em certos momentos, Andrew Watt aumenta demais a pressão quando a própria banda já seria suficiente.

Ainda assim, o saldo é forte. Ringing Hollow, Some of Us, Jealous Lover, Divine Intervention e Hit Me in the Head mostram lados diferentes de um grupo que ainda encontra motivos para entrar em estúdio. O álbum fala de poder, desejo, decepção, drogas, morte e sobrevivência sem se transformar em testamento.

O mais interessante é que os Rolling Stones não parecem preocupados em fechar a própria história. Mick Jagger já afirmou ter começado a escrever material novo, enquanto a banda evita tratar este como um disco final.

Talvez seja justamente isso que mantenha Foreign Tongues vivo. Ele não pede reverência. Pede volume.

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