Amyl and The Sniffers – Cartoon Darkness é energia crua, suor de show e vinil que pede volume

Punk direto, riffs que lembram lança-chamas e Amy Taylor em seu auge interpretativo. Um disco que pega o caos de palco da banda australiana e transforma em canções afiadas que crescem ainda mais quando a agulha toca o prato

Poucas bandas dos anos 2020 conseguiram traduzir tão bem a urgência do palco para o estúdio quanto o Amyl and The Sniffers. Depois do impacto de Comfort to Me (2021), o grupo australiano voltou em setembro de 2024 com Cartoon Darkness, um álbum que parece expandir tudo o que eles já eram: mais sujo, mais rápido, mais preciso e mais emocional. É um disco que não apenas registra a fúria, mas organiza a explosão em estruturas que funcionam no fone, na caixa e, sobretudo, no vinil.

Lançado pela Rough Trade, o álbum marca uma nova fase. Amy Taylor canta com mais intenção e menos caricatura. A banda afia riffs como se cada frase fosse uma testada na porta de saída de emergência. O resultado é um trabalho que coloca o Amyl and The Sniffers na prateleira onde convivem IDLES, Viagra Boys e Amyl ao vivo, que é quase um gênero próprio.

No Cantinho do Disco, a gente volta a esse título para entender por que ele virou um dos LPs mais comentados entre colecionadores e como ele se comporta girando de verdade.

Como o disco se movimenta?

Cartoon Darkness é um álbum curto, mas não pequeno. Ele organiza sua força como quem monta um setlist. As primeiras faixas entram derrubando a porta, mostrando uma banda mais amarrada rítmica e harmonicamente. No meio do percurso surgem aberturas melódicas inesperadas, arranjos de guitarra com mais ar e vocais com contorno emocional novo. No fim, tudo volta ao soco direto, como se o disco quisesse lembrar que, mesmo com camadas, sua matéria-prima ainda é puro impacto.

Ao longo do álbum, dá para sentir que a produção buscou preservar a crueza sem deixar o caos dominar. Há mais cuidado no reverb, mais equilíbrio entre voz e instrumento e mais clareza na mix de cada faixa. É um disco que continua rápido, rasgado e urgente, mas agora com escolhas que o tornam mais relistenable. A evolução é nítida.

Faixas que revelam camadas

O disco abre com “Jerkin’”, que já coloca o espírito do álbum na mesa: guitarra seca, bateria firme e Amy Taylor no ataque, com uma entrega curta e direta que lembra a urgência dos primeiros EPs. A música funciona como aviso de entrada, guiando o ouvinte para um território onde tudo é veloz, nervoso e pulsante.

Em “Chewing Gum”, uma das mais acessadas do álbum, a banda equilibra agressividade e groove. O riff principal tem mais espaço e Amy canta com uma dicção quase falada, lembrando o quanto o Amyl domina o meio-termo entre performance punk e narrativa urbana. É faixa que cresce com volume e que define bem o tom do lado A.

“Tiny Bikini” mergulha no humor provocador que sempre marcou a banda. É curta, sarcástica e acelerada, com guitarras que piscam para o garage rock dos anos 70. Já em “Big Dreams”, uma das mais populares do disco, o grupo se abre para refrões mais largos e uma condução melódica que mostra maturidade. Amy canta com mais intenção e a mix deixa a voz ressoar sem perder a sujeira característica.

No miolo do álbum, surge “Motorbike Song”, que funciona quase como uma fotografia: barulho de rua, sensação de movimento e uma energia que lembra a banda ao vivo cruzando a cidade com amplificador portátil. Em seguida, “Doing In Me Head” flerta com um punk mais estruturado, com baixo firme sustentando o caos e pequenas escolhas de guitarra que criam tensão sem abandonar a crueza.

“Pigs” é onde o disco ganha contorno político mais explícito. A bateria conduz como sirene e Amy empilha versos com irritação crescente, transformando a faixa num dos pontos mais incisivos do álbum. Logo depois, “Bailing On Me” abraça o lado emocional, ainda dentro da estética agressiva, mas com um refrão que abre caminho para uma vulnerabilidade incomum para a banda.

Entre as mais tocadas, “U Should Not Be Doing That” é o centro gravitacional do disco. Com milhões de execuções, ela resume o que a banda faz de melhor: urgência, interpretação feroz, guitarra rasgada e um refrão que acende a plateia. É uma música que parece feita para levantar poeira no chão da sala.

No final, “Going Somewhere” desacelera sem aliviar o impacto. É mais contemplativa no canto, mas ainda guiada por riffs tensos e bateria firme. O encerramento com “Me and the Girls” devolve a energia das primeiras faixas, como se o álbum desse a última arrancada antes do silêncio. É uma despedida calorosa, barulhenta e com cara de show.

O que a prensagem traz de bom?

No vinil, o disco ganha peso. O grave respira com mais liberdade, os médios das guitarras se abrem como lâmina e a voz de Amy fica mais presente sem estourar o quadro. Há uma sensação de palco apertado, como se a banda estivesse a três metros da sala.

As prensagens da Rough Trade circulam em versões padrão e variantes coloridas, todas com boa reputação entre colecionadores. O corte é silencioso, mesmo nas cópias de primeira leva. Para quem tem sistemas compactos, o disco soa equilibrado sem exigir grandes ajustes de equalização. A mix favorece o vinil.

Para quem ele faz sentido?

Se você gosta de álbuns que parecem show e preferem discos curtos que dizem muito com poucas palavras, Cartoon Darkness é escolha certeira. Ele conversa com coleções que vão de Fontaines D.C. a Amyl anterior, mas mantém caráter próprio. É um LP que cresce com volume, com repetição e com a energia de casa cheia. É também porta de entrada para quem quer conhecer o punk australiano contemporâneo.

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