A Tábua de Esmeralda: A obra enigmática de Jorge Ben Jor
Reconhecido como um dos grandes álbuns da MPB, A Tábua de Esmeralda mergulha no universo da alquimia e utiliza arranjos com efeitos especiais, evocando uma atmosfera cósmica e enigmática

Lançado em 1974, “A Tábua de Esmeralda” é uma das joias mais intrigantes da discografia de Jorge Duílio Lima Menezes, conhecido como Jorge Ben Jor. Este álbum não é apenas uma coleção de canções; é uma verdadeira imersão em um universo de simbolismos, referências esotéricas e críticas sociais, revelando um lado mais profundo e complexo do artista.
No Cantinho do Disco, embarcaremos nesta jornada pelas músicas e mistérios apresentados pela obra de Jorge Ben Jor, o rubro-negro multi-instrumentista, amplamente reconhecido como um gênio da MPB, que entregou um dos discos mais icônicos da música brasileira, querido em muitas coleções.
Composto por 12 faixas, o disco de vinil é dividido entre Lado A e Lado B e é o décimo primeiro álbum de estúdio de Jorge Ben Jor, sendo considerado um marco na carreira de Jorge Ben, marcando sua fase de “alquimia musical”. Ele foi eleito o sexto melhor disco da música brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil. O crítico Philip Jandovský, do Allmusic, destacou as melodias do álbum, que conseguem ser naturais sem nunca serem previsíveis.
O álbum é notável como o último projeto de Jorge Ben em que o violão é intensivamente utilizado. Após 1976, o violão foi abandonado devido a dificuldades técnicas que, nas palavras de Jorge Ben, comprometiam a qualidade sonora.
“O sensor de violão que a gente usava não existe mais. Hoje, o som sai limpo, sem aquela respiração. Para gravar, é difícil. Vou tentar fazer, mas sei que naquele som do Tábua de Esmeralda não dá mais para chegar”.
Com direção de produção de Paulinho Tapajós e arranjos de Osmar Milito, Darcy de Paulo e Hugo Bellard, a capa do álbum foi idealizada por Aldo Luiz com as figuras de Nicolas Flamel.
A influência dos mistérios alquímicos
No início da década de 70, Jorge Ben, ainda sem o “Jor”, cursava teologia e filosofia, onde encontrou a obra de Tomás de Aquino, frequentemente citada nas faixas do LP. Desde os primeiros acordes de “A Tábua de Esmeralda”, é possível perceber que Jorge Ben Jor estava profundamente imerso em temas que vão além da música.
O título do álbum faz referência à famosa “Tábua de Esmeralda”, um texto fundamental da alquimia atribuído a Hermes Trismegisto, que simboliza a combinação da sabedoria egípcia e grega. Esta obra, que supostamente revela segredos sobre a transmutação e a busca pela pedra filosofal, serve como uma moldura para a criação musical de Ben Jor.
Em suas composições, Jorge Ben Jor incorporou profundamente esses temas, criando uma tapeçaria musical repleta de códigos herméticos e esotéricos. Críticos e estudiosos, como Paulo da Costa e Silva e Kamille Viola, dedicaram suas carreiras a desvendar esses códigos ocultos, revelando como as letras de Ben Jor se entrelaçam com a filosofia hermética. Por exemplo, na faixa “O Homem da Gravata Florida”, a letra faz alusão à gravata de Paracelso, um alquimista medieval, explorando a conexão entre a alquimia antiga e a moderna medicina.
Os livros que moldaram o disco
Além da referência direta à “Tábua de Esmeralda”, o álbum é moldado por uma série de influências literárias. Fulcanelli, autor de “O Mistério das Catedrais”, é uma influência central. Seu trabalho sobre os segredos alquímicos ocultos em templos antigos inspirou Jorge Ben Jor a integrar mistérios esotéricos em suas músicas. Segundo Kamille Viola, Jorge Ben Jor utilizou a tradução de Fulcanelli como base para algumas composições, tornando o álbum uma reflexão direta sobre a alquimia e seus símbolos.
Erich von Däniken, com seu polêmico “Eram Os Deuses Astronautas?”, também deixou sua marca no álbum. Däniken propõe que os deuses eram, na verdade, astronautas extraterrestres, uma ideia explorada por Jorge Ben Jor em “Errare Humanum Est”. A faixa mistura referências a vários livros e teorias sobre civilizações antigas e a possibilidade de contatos extraterrestres, criando uma colagem lírica que desafia as convenções tradicionais da música popular.
Os códigos esotéricos
Jorge Ben Jor não esconde sua busca por significados mais profundos em suas letras. A canção “Magnólia”, por exemplo, contém códigos ocultos relacionados à botânica e às lendas sobre deusas estelares. O nome “Magnólia” é uma referência à flor mais antiga conhecida na botânica terrestre, e a letra evoca uma deusa que chega à Terra em uma espaçonave dourada, refletindo as narrativas de Däniken.
Da mesma forma, em “Os Alquimistas Estão Chegando”, Jorge Ben Jor descreve os alquimistas como pessoas que se afastam da sociedade para realizar seu trabalho secreto. Esse verso pode ser interpretado como uma crítica à perseguição dos alquimistas na Idade Média ou como uma metáfora para a busca pessoal e espiritual que Jorge Ben Jor empreende através de sua música.
Uma jornada não completa
Apesar da riqueza e profundidade, a jornada de “A Tábua de Esmeralda” não teve o desfecho planejado por Jorge Ben Jor. Em 2011, o artista anunciou a intenção de fazer uma turnê exclusiva com o repertório do álbum, um desejo que nunca se concretizou. Desde então, Jorge Ben Jor tem levado uma vida relativamente reclusa, com aparições esporádicas para shows e lançamentos limitados.
Uma de suas aparições foi no programa de Washington Olivetto, o “W/Cast”, onde ele cita A Tábua de Esmeralda como o melhor disco de sua carreira e fala sobre a concepção e distribuição da obra. Confira a seguir:
Sua promessa de que suas músicas seriam “cantadas pelos filhos e pelos filhos dos filhos” reflete a certeza de que “A Tábua de Esmeralda” tem um lugar eterno no coração dos fãs e na história da música.
Conclusão
“A Tábua de Esmeralda” é um álbum de alto astral, no qual Jorge Ben Jor prega a felicidade e a paz de espírito em suas letras e em sua base musical irresistível, composta por violão, baixo e percussão. O álbum contém clássicos como “O Homem da Gravata Florida”, “O Namorado da Viúva”, “Eu Vou Torcer”, “Menina Mulher da Pele Preta”, “Minha Teimosia, uma Arma pra te Conquistar”, “Zumbi”, “Brother” e “Cinco Minutos”.
Este disco vai além da simplicidade musical, oferecendo uma rica tapeçaria de simbolismos e referências esotéricas. Jorge Ben Jor criou um álbum que desafia convenções e oferece uma reflexão profunda sobre a alquimia, espiritualidade e crítica social. A Tábua de Esmeralda permanece como um testamento do talento e da visão de um artista que explorou territórios desconhecidos, criando um legado que continua a fascinar e inspirar.
Raridade em LPs, A Tábua de Esmeralda voltou ao formato vinil pela Polysom em um relançamento premium. Adquira sua cópia pelo link:

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