Desejos do Cantinho: Emicida – “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe”
Um marco da virada das batalhas para o estúdio, com voz em primeiro plano, interlúdios, clássicos de crônica e a energia das ruas. Imaginamos a prensagem que gostaríamos de ver na prateleira

Lançada em 2009 pela Laboratório Fantasma, “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe” é a mixtape que transformou o nome de Emicida em catálogo. São 25 faixas e pouco mais de uma hora de percurso entre intros, recados e canções de tese. Nasceu no DIY, vendeu na mão, virou documento — e, ainda assim, nunca ganhou edição oficial em vinil.
É justamente aqui que nosso desejo se acende. A arquitetura de interlúdios, as viradas de clima e o peso da palavra pedem pausa física, lado A e lado B respirando ideias. É uma obra que pede ranhura. No cantinho do disco, a gente veste a camisa de fã e desenha a edição 2LP que faria jus ao impacto desse começo.
Por que este disco importa
Em 2009, “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe” virou chave no rap brasileiro: mostrou que dava para sair das batalhas e construir catálogo com narrativa, coesão e público — de forma independente. Em poucos meses, a mixtape já circulava de mão em mão, vendida no boca a boca, e ajudava a consolidar um modelo de produção e distribuição que influenciou toda a década seguinte.
O single “Triunfo (A Rua é Nóiz)” projetou Emicida fora do circuito de rinhas e ainda rendeu indicações no VMB 2009, abrindo as portas para uma conversa maior com o mainstream sem diluir linguagem. É um trabalho que virou documento de geração pela combinação de crônica de rua, interlúdios e refrões de catarse.
Como esse disco nasceu
A mixtape foi gravada no primeiro trimestre de 2009, com 25 faixas montadas entre estúdios paulistanos e o quartel-general da recém-erguida Laboratório Fantasma (criada por Emicida ao lado do irmão, Fióti). A costura técnica deu forma ao “livro em áudio”: sessões intensas, mix na Loud e arte gráfica nascida em casa.
Dez anos depois, o projeto ganharia um livro/antologia ilustrada celebrando o universo da estreia. Prova de que o impacto foi além do áudio e virou memória de época.
Por que este título pede vinil
A mixtape tem fôlego de livro. As faixas conversam por temas — origem, afeto, trabalho, cidade — e os interlúdios funcionam como dobradiças entre capítulos. Em streaming, tudo corre sem folga; no disco, cada virada de lado vira um acontecimento e realça o que Emicida sempre soube fazer: amarrar narrativa.
Também é um registro de timbre e dicção. A voz em primeiro plano, o grave seco que empurra a rima, as caixas que estalam sem engolir o texto. Com ranhura e corte cuidadoso, esses elementos ganham corpo sem virar caricatura de “boom bap”.
Como imaginaríamos a edição
A proposta é um 2LP em 33 rpm, com cerca de vinte minutos por lado para preservar dinâmica. O primeiro LP apresenta o personagem e o manifesto: a Intro (É Necessário Voltar ao Começo) abre a porta, “E.M.I.C.I.D.A (Adoooro)” crava a assinatura e, na sequência, as crônicas de cotidiano — “Sozim”, “Rotina”, “Só Isso” e “Pra Mim (Isso É Viver)” — ganham corpo.
O segundo LP concentra catarse e epílogo. Aqui moram os afetos que o público abraçou — “Ela Diz”, “Sei Lá”, “Fica Mais um Pouco, Amor” — e o par que virou rito de show, “Triunfo (A Rua é Nóiz)” e “Ooorra… (A que deu nome à mixtape)”. A ideia é deixar “Eu Tô Bem” preparar o sprint final antes da faixa-título encerrar a narrativa. O silêncio entre músicas vira parte da dramaturgia, dando respiro ao grave e às palavras.
Faixas que contam a história
A Intro não é só abertura: é a câmera voltando do close para mostrar o cenário inteiro. Em sequência, “E.M.I.C.I.D.A (Adoooro)” apresenta a persona com humor e autoconsciência, já sinalizando que o disco é percurso, não coletânea.
No núcleo das crônicas, as canetas afiadas medem a cidade e o coração. “Sozim” e “Só Isso”; “Rotina” e “Pra Mim (Isso É Viver)” desenham a vida miúda, enquanto “Ainda Ontem” dispara como catarse. Do lado do afeto, “Ela Diz” puxa o bloco com folga de hit, e “Sei Lá” e “Fica Mais um Pouco, Amor” lembram que a rua também é casa.
Quando a mixtape acende, entram os mantras de plateia. “Pra Não Ter Tempo Ruim” arma o coro e prepara terreno para o par que a rua consagrou: “Triunfo (A Rua é Nóiz)” — o single que projetou Emicida fora das rinhas — e “Ooorra… (A que deu nome à mixtape)”, que fecha o percurso com a frase de batalha transformada em bandeira. Entre eles, “Eu Tô Bem” ajeita o passo antes do fim — é o respiro que antecede a arrancada final.
Nota de palco
“Triunfo” e “Ooorra…” seguem aparecendo nos shows recentes, virando catarse ao vivo com o público rimando palavra por palavra.
Arte, encarte e memória
A gente imagina capa dura em gatefold, com foto de 2009 ocupando o miolo, e um livreto de 16 páginas com letras, créditos e imagens de flyers das batalhas. Os rótulos seguem a tipografia da Laboratório Fantasma de época, e um download card oferece os arquivos digitais em alta.
Para fechar, um pôster pequeno com linha do tempo ligando a mixtape aos lançamentos seguintes. Não é fetiche de colecionador: é material de arquivo para quem chegou por “AmarElo” e quer entender o primeiro capítulo.
Som e corte que gostaríamos
Remaster a partir dos masters de 2009, sem emparedar o som. O objetivo é headroom, voz alta e clara, grave firme e caixa com ataque sem fadiga. Nada de lado espremido acima de vinte minutos. É um corte pensado para setups reais do Brasil, cápsula MM e sala compartilhada, mantendo folga para a música respirar.
Na prateleira, uma tiragem padrão em vinil preto 140 g já entregaria muito. Para quem gosta de variantes, uma edição limitada 2LP em marrom-terra, numerada, fecha a conta com carinho.
Para quem faria sentido
Para quem acompanhou Emicida das rinhas ao primeiro CD, seria peça de memória. Para quem chegou pelo documentário e quer mapear a origem, seria guia. Em estantes de rap, MPB curiosa e coleções de primeiras prensas, é o título que a gente puxa quando precisa lembrar de onde veio tanta coisa.
Quer continuar mergulhando no universo do vinil?
No Cantinho do Disco, além de reviews e análises, a gente te ajuda a encontrar os melhores álbuns e acessórios para sua coleção.
Participe do nosso grupo de ofertas clicando aqui!




Sem comentários