Jack White e a genialidade por trás de Lazaretto
Um dos maiores defensores do vinil, Jack White, conseguiu com seu segundo álbum solo de estúdio, Lazaretto, superar até mesmo seus rigorosos padrões

Jack White não precisa de grandes invenções para garantir seu lugar na história da música; suas canções já fazem isso por ele. No entanto, com o lançamento de 10 anos atrás, ele continuou a surpreender. “Lazaretto”, seu segundo álbum solo, lançado em 10 de junho de 2014, é um testemunho de sua genialidade e inovação, tanto musical quanto tecnicamente.
Após o sucesso de seu primeiro álbum solo, “Blunderbuss”, White estava determinado a criar algo ainda mais marcante. E ele conseguiu. “Lazaretto” não é apenas um álbum de estúdio; é uma obra-prima que redefiniu o que um vinil pode ser.
No Record Store Day de 2014, Jack White fez o lançamento mais rápido do mundo, gravando, prensando e vendendo a faixa-título “Lazaretto” em menos de quatro horas. Essa façanha impressionante foi apenas o começo das inovações associadas a este álbum. Esse feito, além de destacar a habilidade técnica e a organização da equipe de White, também mostrou seu compromisso com a arte do vinil e seu desejo de criar experiências únicas para seus fãs.
O famoso “Ultra LP”
White produziu um dos vinis mais inovadores já vistos. Chamado de “Ultra LP”, o vinil de “Lazaretto” é uma obra de arte técnica. Para explicar todas as novidades, White e Ben Blackwell, da Third Man Records, precisaram de um vídeo de quase dez minutos, que você pode ver na íntegra a seguir. Aqui estão os detalhes apontados pela dupla:
- Tocando de dentro para fora: O lado A do vinil pode ser tocado tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, uma inovação inédita que evita tocar as faixas ao contrário. Isso não é apenas uma curiosidade técnica, mas se mostrou uma afirmação da capacidade de White de pensar fora da caixa e desafiar as convenções estabelecidas.
- Música na borda do disco: “Lazaretto” tem música na borda do disco, a primeira vez que isso acontece na história. A última música do lado A toca em looping contínuo. Embora possa parecer pequeno, é uma demonstração da atenção aos mínimos detalhes dedicados à experiência de audição.
- Centro do vinil com som: White usou todas as partes do vinil, incluindo a parte central onde fica o adesivo, que também produz som. Essa ideia já havia sido testada em “Sea of Cowards” do The Dead Weather e no icônico “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles.
- Três velocidades de reprodução: As músicas normais do álbum tocam a 33 RPM (rotações por minuto), enquanto duas faixas escondidas tocam a 45 RPM e 78 RPM. Isso adiciona uma camada extra de interatividade e exploração para os ouvintes, incentivando-os a experimentar diferentes configurações para descobrir todos os segredos do álbum.
- Sem compressão: Diferente do CD, a versão em vinil de “Lazaretto” não sofreu compressão, preservando o som original da fita-master. Para os audiófilos, isso significa uma qualidade de som mais rica e detalhada, proporcionando uma experiência de audição mais autêntica.
- Acabamento diferente para cada lado: O lado A tem um acabamento opaco, dando a aparência de um 78 RPM virgem. Essa escolha estética não só distingue o vinil de “Lazaretto” de outros álbuns, mas também reflete a influência dos antigos discos de 78 RPM na obra.
- Escolha da intro em “Just One Drink”: A faixa “Just One Drink” possui introduções acústica e elétrica, dependendo de onde a agulha é colocada.
- Holograma de anjos: Um holograma de dois anjos, criado por Tristan Duke, aparece no lado A quando o vinil gira, adicionando um elemento visual deslumbrante. Esse toque pode ser visto a partir do 6:30 no vídeo deixado aqui anteriormente. E de fato, o disco se tornou um objeto de arte, algo para ser admirado tanto visualmente quanto auditivamente.
A gravação e as influências
As sessões de gravação de “Lazaretto” começaram em 2012, durante as pausas da turnê de “Blunderbuss”. White revelou em uma entrevista para a Rolling Stone que estava trabalhando em “20 a 25 faixas”, explorando uma variedade de estilos. As canções do álbum foram inspiradas por histórias curtas e peças que White escreveu aos 19 anos. Ele encontrou esses escritos em seu sótão e os retrabalhou em letras de canções. “Algumas são um lixo, e eu meio que ri enquanto eu as lia”, explicou White. “Eu ia jogar fora várias delas, mas estava experimentando novos estilos de composição para o álbum.”

Essa mistura de influências literárias e musicais resulta em um álbum que é ao mesmo tempo pessoal e universal. Faixas como “High Ball Stepper”, com seu instrumental cru, mostram a habilidade de White de fundir o passado e o presente de forma inovadora.
A mistura de rock, blues, folk, country, e até toques de funk e rap tornam a audição cada vez mais interessante e agrega a descoberta de cada faixa e estilo. A influência do blues é evidente em faixas como “Three Women”, inspirada em “Three Women Blues” de Blind Willie McTell com seu instrumental cru. As letras exploram temas de isolamento, luta pessoal e as complexidades da identidade, muitas vezes com um toque de humor e ironia.
O álbum é uma tapeçaria rica de estilos musicais, cada faixa do disco de duração total de quase 40 minutos, oferece algo único. “Would You Fight for My Love?” destaca o fogoso bandolim e rabeca, enquanto “Alone in My Home” captura a angústia adolescente. A faixa-título, “Lazaretto”, é uma rima sobre “braggadocio”, inspirada pelo estilo de letras do hip-hop, onde o personagem se gaba de feitos reais, não imaginários.
Recepção e impacto
O álbum foi amplamente aclamado pela crítica, com uma pontuação de 80/100 no Metacritic. Críticos elogiaram a habilidade de White de transcender gêneros e criar arranjos complexos e inovadores. “Lazaretto” estreou no primeiro lugar da Billboard 200, vendendo 138.000 cópias na primeira semana, incluindo 40.000 unidades de vinil. Este foi um recorde de vendas de vinil desde 1991, consolidando o renascimento do formato na época.
“Lazaretto” foi nomeado Melhor Álbum de Música Alternativa no Grammy de 2015, enquanto a faixa-título foi indicada como Melhor Canção de Rock e ganhou o prêmio de Melhor Performance de Rock. Com vendas de 87.000 unidades até o final de 2014, “Lazaretto” foi o LP em vinil mais comprado nos EUA naquele ano.
Conclusão
Jack White, com “Lazaretto”, não apenas entregou um álbum musicalmente rico e diversificado, mas também ampliou as fronteiras técnicas do vinil. Seu compromisso com a inovação sonora fez deste álbum um marco na indústria musical, mostrando que o vinil é mais que uma nostalgia — é um formato vibrante e inovador.
“Lazaretto” celebrou e ainda celebra a criatividade e a habilidade técnica de Jack White. Oferecendo uma coleção de músicas envolventes e cuidadosamente trabalhadas, o álbum desafia as convenções da produção musical moderna mesmo sendo um álbum de 20 anos. Através de suas inovações no formato de vinil e sua abordagem eclética à composição, White prova que a música é uma forma de arte em constante evolução, pronta para ser redescoberta e reinventada. Em uma era dominada pelo digital, “Lazaretto” é uma poderosa lembrança de que a arte tangível e física ainda ocupa um lugar especial nos corações dos amantes da música.
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One response
Um álbum maravilhoso, verdadeira obra prima.
Ficou incrível a matéria sobre lp. Parabéns.