Paêbirú e a jornada psicodélica de Lula Côrtes e Zé Ramalho
Obra musical retorna às prensagens fiéis à edição original de 1975, oferecendo a oportunidade de redescobrir o agreste do nordeste brasileiro através de seu som

Em 1975 nascia um dos álbuns mais icônicos e enigmáticos da música brasileira: Paêbirú.
Fruto da colaboração entre Lula Côrtes e Zé Ramalho, o disco transcende meras classificações de gênero, tornando-se uma obra-prima psicodélica que mistura o misticismo nordestino com uma sonoridade experimental única.
Lula Côrtes, artista visual e músico, já era conhecido por sua criatividade sem limites. Sua trajetória artística sempre foi marcada pela ousadia e pela vontade de explorar novas fronteiras sonoras e visuais. Côrtes não se limitava a um único meio; ele era um verdadeiro polímata, imerso tanto na música quanto nas artes visuais, sempre buscando maneiras de fundir essas disciplinas em uma experiência sensorial completa.
Zé Ramalho, por sua vez, estava no início de sua jornada musical, mas já carregava consigo uma profunda conexão com as tradições culturais do nordeste brasileiro. Nascido em Brejo do Cruz, na Paraíba, Ramalho cresceu cercado pelos sons da música regional, do forró e do xote, além das histórias e lendas que permeavam o cotidiano nordestino. Sua música era, desde cedo, uma síntese dessas influências, enriquecida por uma visão poética e introspectiva.

A narrativa que envolve a criação de Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol é tão cativante quanto a própria música. Em 1975, Lula Côrtes e Zé Ramalho se reuniram nos estúdios da Rozenblit, em Recife, com a audaciosa missão de encapsular a essência dos quatro elementos da natureza em um único álbum.
O título do disco faz referência ao Caminho da Montanha do Sol (ou “Caminho do Peabiru”), uma antiga rota construída pelos indígenas guarani há mais de mil anos, que ligava o Oceano Atlântico ao Pacífico, conectando Santa Catarina a Machu Picchu e passando pelo Vale do Ivaí. Inicialmente, o álbum deveria se chamar “Peabiru”, significando “caminho para o Peru”; no entanto, uma troca de letras ao grafar o nome na capa resultou em “Paêbirú”.
A principal fonte de inspiração para a dupla foi a Pedra do Ingá, situada no município de Ingá, na Paraíba. Durante uma expedição ao local, os músicos recorreram a cogumelos alucinógenos, uma experiência que aprofundou sua conexão com a natureza e a espiritualidade. As lendas sobre Sumé, uma entidade mitológica adorada pelos indígenas antes da colonização, não apenas influenciaram a faixa de abertura, mas também diversas passagens do álbum. Figuras importantes da cultura brasileira, como Iemanjá, também fazem parte das letras.
O resultado dessa jornada criativa, que se desenrolou em apenas um dia e meio no estúdio, foi uma obra atemporal repleta de espontaneidade e inovação. A rapidez com que Paêbirú foi gravado é uma prova da química artística entre os dois músicos. Sem tempo para refinar cada detalhe, confiaram em sua intuição e habilidade para criar um som autêntico e visceral. O estúdio da Rozenblit, apesar de seu equipamento limitado, tornou-se um caldeirão de criatividade onde tradições e modernidade se encontraram.
O álbum é notável pela diversidade instrumental, com Côrtes e Ramalho utilizando uma variedade de instrumentos para evocar os elementos naturais. A tradicional viola de 12 cordas e flautas indígenas se misturaram com efeitos eletrônicos pioneiros, criando uma paisagem sonora que ainda hoje soa inovadora e atemporal.
Quando Côrtes e Ramalho se encontraram, a alquimia foi instantânea. Compartilhando uma visão artística que ia além das convenções, buscaram uma expressão que pudesse capturar algo mais profundo e transcendente. Assim, nasceu Paêbirú, um álbum conceitual prensado como um disco duplo, com onze faixas divididas pelos quatro lados dos dois discos, que se propunha a explorar os quatro elementos da natureza: Terra, Ar, Fogo e Água.
Cada elemento foi meticulosamente representado nas faixas do álbum:
● Terra: Representado por ritmos e melodias que evocam a solidez e a fertilidade, com instrumentos de percussão e cordas que ressoam com a robustez do solo nordestino.
● Ar: Capturado através de sons etéreos e flautas suaves, criando uma sensação de leveza e movimento, como uma brisa que sopra pelas planícies.
● Fogo: Traduzido em ritmos intensos e vibrantes, com guitarras elétricas e percussões pulsantes que simbolizam a paixão e a energia do fogo.
● Água: Evocado por melodias fluidas e harmonias tranquilas, refletindo a serenidade e a profundidade das águas.
Mergulhando em uma pesquisa espiritual e cultural, buscaram inspiração nas lendas e mitos do nordeste. Paêbirú não seria apenas um disco de música, mas uma jornada espiritual, uma tentativa de conectar o ouvinte com as forças primordiais da natureza.
As letras de Paêbirú mergulham na espiritualidade e no folclore nordestino, explorando temas indígenas, criando uma narrativa que é ao mesmo tempo pessoal e universal. Lançado em uma época de grande efervescência cultural no Brasil, Paêbirú capturou o espírito do tempo, destacando-se como uma obra singular que misturou elementos da música tradicional nordestina com experimentações psicodélicas e eletrônicas.
No entanto, a lenda de Paêbirú vai além das notas musicais. Pouco após seu lançamento, uma enchente devastadora atingiu Recife, inundando o depósito da gravadora Rozenblit e resultando na perda de cerca de mil cópias do álbum que teve uma prensagem única de 1.300 exemplares na época, tornando-o uma raridade quase imediata. Esse evento trágico não apenas adicionou uma camada de mistério e exclusividade ao disco, mas também aumentou seu valor simbólico e monetário entre colecionadores, fazendo com que uma cópia em bom estado de 75, chegue ao valor comercial médio de R$ 4 mil. As fitas originais foram salvas.
Hoje, possuir uma cópia original de Paêbirú é como ter uma peça de arte rara, com esses preços que podem alcançar valores astronômicos. O álbum foi relançado em várias ocasiões, incluindo um relançamento em vinil em 2019, a partir das fitas originais, que preservou sua essência autêntica. E agora em 2024, uma nova prensagem foi realizada pela Polysom, preservando o selo da época e revivendo mais uma vez a linda história do disco.
Infelizmente, Lula Côrtes faleceu em 2011, deixando um legado duradouro na música brasileira. Zé Ramalho, por sua vez, opta por manter silêncio sobre o álbum, evitando discutir seu impacto e a recepção que teve na época. Sua biógrafa sugere que essa hesitação se deve à falta de atenção da imprensa quando ele mais precisava. Além disso, houve o desejo de Zé Ramalho de relançar a faixa “Não Existe Molhado Igual ao Pranto” em seu disco de 1993, Cidades e Lendas. No entanto, Lula teria solicitado um pagamento pelo uso da faixa que co-criou, o que gerou descontentamento em Zé e resultou no corte de relações entre os dois.
E aqui fica uma bela indicação do documentário Nas Paredes da Pedra Encantada (2011) que foi produzido para resgatar histórias sobre a gravação do álbum, trazendo à luz detalhes e testemunhos de artistas envolvidos no projeto.
A história de Paêbirú é um testemunho da criatividade indomável e da resiliência dos artistas brasileiros. Gravado em condições adversas e sobrevivendo a uma catástrofe natural, o álbum continua a inspirar e cativar. Para Côrtes e Ramalho, Paêbirú foi mais do que um projeto musical; foi uma exploração espiritual e artística.
Em suma, Paêbirú não é apenas um disco, mas uma lenda viva, um símbolo da confluência entre arte, natureza e espírito. Sua história continua a ser contada, inspirando novas gerações a ouvir, criar e sonhar.
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