Turnstile – Never Enough: energia em expansão e um novo fôlego para o hardcore
Do hardcore ao groove experimental, o novo disco do Turnstile mistura caos, melodia e maturidade em um lançamento que já soa histórico — e encontra no vinil seu formato mais pulsante

Quando Never Enough chegou às plataformas em junho de 2025, muita gente se perguntou se o Turnstile conseguiria repetir a explosão de Glow On sem se tornar uma caricatura de si mesmo. A resposta veio em forma de um disco que não tenta repetir fórmulas, mas sim abrir novas portas. Menos direto, mais reflexivo.
Ainda com os pés no hardcore, mas de olhos bem abertos para outros gêneros, texturas e sensibilidades. Uma metamorfose que soa viva e necessária — ainda mais quando escutada no vinil, onde os graves ganham peso e cada silêncio vira parte da composição.
No Cantinho do Disco, a gente acredita que discos assim não apenas se escutam — eles se sentem no corpo. E Never Enough é esse tipo de obra: um disco que pulsa no peito, que balança o chão sob os pés e que, ao mesmo tempo, convida à contemplação. É um passo além do que o rock moderno tem feito, e por isso merece atenção.
Caos, groove e reconstrução: o Turnstile em nova fase
Gravado no icônico The Mansion, em Los Angeles, o álbum marca a primeira era da banda sem o guitarrista Brady Ebert, substituído por Meg Mills — cuja entrada trouxe renovada energia, mesmo não tendo participado diretamente das gravações. Se Glow On era sobre o impacto imediato, Never Enough se constrói na insistência, no detalhe e na vibração constante.
A faixa de abertura, “Never Enough”, já entrega o espírito do disco: um hardcore acelerado que se quebra em um refrão quase shoegaze, com delay nas guitarras e vocal que soa como desabafo. Em “Light Design”, a banda desacelera, flertando com o post-rock e sintetizadores etéreos.
Já “Birds”, talvez uma das mais agitadas e belas do disco, mistura guitarras sujas, harmonias vocais e uma letra que parece escrita à meia-luz — é o Turnstile dizendo que amadurecer também pode ser suave e punk.
Hayley Williams aparece em “Seein’ Stars”, uma das favoritas dos fãs, onde o pop alternativo da vocalista do Paramore encontra um beat sincopado e guitarras dançantes. Devonté Hynes (Blood Orange) participa de “Late Sleep”, um interlúdio atmosférico que lembra o melhor do R&B alternativo contemporâneo.
E se ainda havia dúvidas de que o Turnstile queria romper limites, a participação de Shabaka Hutchings em “Sunshower” encerra o disco com sopros cósmicos, um fade-out longo e contemplativo — quase como um adeus melódico a uma fase da banda.
Lançamento e repercussão
O álbum estreou no top 10 da Billboard 200 e recebeu elogios unânimes da crítica, sendo descrito pela Pitchfork como “um exemplo de reinvenção emocional sem perder o espírito do punk”. Ainda na primeira semana, vendeu cerca de 38 mil unidades equivalentes, com destaque para a edição em vinil, que esgotou em pré-venda em diversas lojas internacionais.
Turnstile também foi confirmado como atração de grandes festivais europeus e americanos no segundo semestre de 2025, e há rumores de um retorno ao Brasil para o Lollapalooza 2026, onde a banda já fez uma apresentação aclamada anos antes.
Quando o vinil respira junto com a música
Com tantos detalhes, camadas e silêncios que contam tanto quanto os gritos, Never Enough se beneficia imensamente da escuta em vinil. A prensagem em 180g, já disponível em edições internacionais, valoriza os timbres médios e as pausas dramáticas que muitas vezes se perdem na compressão digital. O baixo salta, os pratos ressoam mais naturais, e há algo quase físico no modo como a agulha transita entre as faixas.
A edição brasileira oficial ainda não foi detalhada, mas a versão internacional em vinil preto já circula com encarte expandido, letras e fotos de bastidores. Há também variantes coloridas, como a lilás transparente, vendida como edição limitada com selo da Turnstile Records. O visual acompanha a proposta do disco: intensidade, estética e vulnerabilidade em equilíbrio.
Hardcore que dança, pensa e transforma
O que mais impressiona em Never Enough é a coragem de não agradar de imediato. O Turnstile poderia ter seguido a linha de hits rápidos, refrões explosivos e batidas familiares. Mas preferiu construir uma ponte entre a energia crua do hardcore e a liberdade de gêneros como o dream pop, o funk, o pós-punk e até o jazz alternativo. E essa transição não soa forçada: ela pulsa naturalmente em cada faixa.
Essa decisão pode afastar parte do público que esperava outra sequência de faixas como “Blackout” ou “Mystery”. Mas para quem ouve com atenção, Never Enough oferece uma nova proposta estética — uma que valoriza o espaço entre os sons, o groove que paira no ar e o silêncio que antecede o impacto. Um disco que amadurece a cada audição e que, como poucos, traduz tão bem o espírito de seu tempo: urgente, sensível, expansivo.

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