Vampire Weekend – Only God Was Above Us: ruído, memória e a Nova York que ainda pulsa

Um disco que revisita a cidade, a juventude e o tempo com arranjos densos e melancolia elegante — e que no vinil revela camadas de textura e dinâmica únicas

Lançado em 5 de abril de 2024, Only God Was Above Us é o álbum mais sombrio e urbano do Vampire Weekend. Depois de seis anos sem inéditas, Ezra Koenig voltou o olhar para Nova York, cidade que moldou a identidade inicial da banda, mas agora retratada com outro filtro: menos cores, mais sombras, como se cada faixa fosse uma fotografia em preto e branco de ruas gastas pelo tempo. Produzido por Koenig em parceria com Ariel Rechtshaid, mixado por Dave Fridmann e masterizado por Emily Lazar, o disco explora ruído, silêncio e memória como parte da mesma linguagem musical.

No Cantinho do Disco, a gente defende que alguns álbuns só revelam sua força quando ouvidos sem pressa, deixando a agulha percorrer cada detalhe. Only God Was Above Us é um desses casos: uma obra que exige tempo e devolve intensidade.

Entre ruínas e reconstruções

O título vem de uma manchete do New York Daily News de 1988, ligada ao voo 243 da Aloha Airlines, estampada em uma das fotos de Steven Siegel. As imagens usadas no encarte mostram vagões de metrô abandonados em ferro-velhos nos arredores da cidade, e ajudam a criar a atmosfera do álbum: um retrato de Nova York pela lente da decadência, mas também da sobrevivência. Não se trata de nostalgia, e sim de arqueologia afetiva.

A crítica reconheceu esse tom imediatamente. Com nota 88 no Metacritic, o disco foi descrito pela Pitchfork como uma das obras mais coesas do grupo e pelo Guardian como sua coleção mais ousada até hoje.

Faixas em destaque

“Ice Cream Piano” abre o disco com guitarras incisivas e um pulso de pós-punk, apresentando o contraste entre tensão e lirismo. Logo depois, “Capricorn” se torna o coração da obra: melodia delicada que esconde versos sobre envelhecer e seguir em frente, revelando o humor agridoce de Koenig.

“Connect” cresce em camadas até um refrão que nunca explode, mas expande, sustentado por um baixo encorpado e teclados discretos. “Prep-School Gangsters” traz melodia cristalina enquanto fala de juventude e privilégio, contrapondo leveza musical a letras de desconforto.

O experimentalismo aparece em “The Surfer”, com arranjos de sintetizadores e trompetes que criam um cartão-postal quebrado. “Gen-X Cops”, por sua vez, retoma a urgência punk com guitarras que soam como sirenes. Já “Mary Boone” mistura referências culturais e ecos de hip-hop noventista, nomeando a galerista que marcou a cena artística nova-iorquina, enquanto samples e coros completam o mosaico.

O encerramento com “Hope” é meditativo e hipnótico. São quase oito minutos em que Koenig repete “I hope you let it go” como um mantra, deixando no ar a sensação de liberação.

A experiência no vinil

O álbum foi lançado em dois LPs de 180 g, com capa dupla, encarte e pôster dobrável. Essa divisão em quatro lados dá respiro às canções, permitindo que cada faixa ocupe espaço com a intensidade desejada. No vinil, “Gen-X Cops” ganha graves mais sólidos, “Hope” expande seus reverbs com naturalidade e os silêncios de “Capricorn” parecem ainda mais cheios de ar.

Além da versão tradicional em preto, há prensagens limitadas em cores como prata e transparente, algumas exclusivas de lojas independentes e do programa Fans First do Spotify. Essas variantes já despertam interesse de colecionadores e reforçam a dimensão visual da obra.

Um retrato maduro

Only God Was Above Us é um álbum que não busca agradar de imediato. Ele prefere o desconforto, o silêncio e as texturas granulosas como forma de narrar a vida urbana. É o Vampire Weekend amadurecido, olhando para sua cidade e para si mesmo com honestidade. No vinil, esse processo ganha ritual: abrir a capa dupla, manusear o encarte e acompanhar cada faixa como se fosse um fragmento de memória.

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